Rodovias têm 2 mil pontos vulneráveis à exploração sexual infantil, diz estudo

As rodovias federais brasileiras têm 1.969 pontos vulneráveis à exploração sexual infantil, de acordo com a Polícia Rodoviária Federal.

A contagem mais atual foi feita entre 2013 e 2014 e localizou um número 11% maior de locais em relação ao biênio anterior. Operações policiais nos últimos dez anos resgataram 4.321 crianças e adolescentes nessas áreas.

A exploração na beira da estrada pode estar escondida em uma barraca de alimentação ou no pátio de um posto de combustível, diz o policial Igor Carvalho, presidente da Comissão Nacional de Direitos Humanos da PRF.

“É fácil identificar. Onde tem prostituição, tráfico de drogas e crimes violentos também tem criança sendo explorada”, diz.

Sete grandes eixos rodoviários concentram a metade dos lugares onde ocorre violência sexual.

As vítimas, na maioria, nasceram em famílias desestruturadas e com baixa escolaridade. “Crianças são tiradas do seio familiar por uma rede especializada de aliciadores que prometem a elas melhores condições de vida”, afirma Carvalho.

A meta da corporação é auxiliar governos estaduais a monitorar seus próprios pontos vulneráveis. Único Estado que já tem seu mapa, Pernambuco contou 1.300 pontos suspeitos em 7.000 quilômetros de estradas.

A Childhood Brasil pesquisa, há dez anos, o papel de caminhoneiros nesse drama.

Em 2015, de 680 motoristas entrevistados, 13% afirmaram já ter feito sexo com menores de 18 anos. Em 2005, a parcela chegava a 37%.

“No passado, quando o caminhoneiro era abordado para um programa sexual infantil, entendia que era normal e que estava até ajudando a vítima. Hoje, sabe que é crime”, diz Eva Dengler, gerente de programas empresariais da Childhood.

A mudança tem ocorrido nas empresas, segundo entidades do setor. “O caminhoneiro sai do pátio muito bem orientado a não parar nos pontos vulneráveis”, diz José Helio Fernandes, presidente da NTC&Logística, que representa 3.000 transportadoras.

A falta de estrutura nas estradas favorece o crime, na visão de Pedro José Lopes, presidente da Associação Brasileira de Logística e Transporte de Carga. “Os pátios são abertos, sem iluminação adequada. Exposto e desassistido, o profissional cai nesse tipo de situação.”

A Federação dos Caminhoneiros Autônomos do Estado de São Paulo, com 250 mil cadastrados, reconhece que a classe movimenta a cadeia da exploração sexual infantil.

Para a entidade, o antídoto está na educação. “Tanto o novo motorista como o veterano tem passado por capacitação em direitos humanos”, afirma o diretor, Haroldo Christensen.

Com 145 postos de atendimento nas maiores rodovias e cursos, o Sest (Serviço Social do Transporte) e o Senat (Serviço Nacional de Aprendizagem do Transporte) trabalham para fazer do caminhoneiro um agente de proteção da infância, segundo a diretora Nicole Goulart.

“A informação qualificada tem tornado muitos deles denunciantes de violações contra as crianças. Mas é um trabalho de formiguinha.”

TOTAL DE PONTOS VULNERÁVEIS DE PROSTITUIÇÃO INFANTIL

Fontes: Polícia Rodoviária Federal e Disque 100

  • 1.969 são os locais propícios
  • 4.321 crianças e adolescentes foram resgatados entre 2005 e 2014
  • 470 cidades concentram 56% de pontos críticos e de alto risco
  • 408 locais críticos estão em postos de combustíveis em zonas urbanas

Fonte: Folha de S. Paulo